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Your role, not mine.

Não o julgava por ter escolhido fugir, muito menos o julgava por ter sido tão ingrato. Daria sua vida para que ele se salvasse, para que continuasse a salvar a sua própria pele como sempre fizera, e o ardor do ódio o perturbava todas as noites, quando deitava na sua cama macia e virava de um lado para o outro na busca do sono, e então, vinham em seu lugar, pensamentos vagamento tortuosos. Não deveria estar naquele lugar, ele deveria estar. Não deveria sequer sonhar em estar ali, ele deveria estar ali porque havia merecido. As pessoas são tão tolas, não, nunca iria aprender, o seu coração se negava a aceitar, mas o cérebro gritava macabramente para que parasse, para que parasse de se torturar por quem não merece, mas a tortura o proporcionava felicidade, a sensação de estar preenchido por completo era passageira, assim como a vida que passava diante dos seus olhos. Ele não devia estar pensando naquilo, ele deveria estar. Os papeis foram invertidos, a dor fora trocada, a solidão tomara um novo companheiro, a tristeza um novo alimento e a dor uma nova moradia. “E se eu não” era o começo dos seus primeiros pensamentos, e a dor lhe atingia e atravessava o peito, e o ardor do ódio penetrava sua alma e tomava conta do seu ser por inteiro. Possessivo, demoníaco, destruidor, tal sentimento era horrível. O arrependimento pelo ingrato, o tempo que não volta, as magoas que despertam, o amargo mais vívido e o doce mais apagado. O quente mais frio do que quente, e o frio mais quente do que frio, e ser controverso já era normal, se questionar já era normal, o ódio já era normal, a solidão já era normal, e a loucura lhe abraçava, a loucura lhe amava como um fiel companheiro, com mundos a escolher, com amores a desejar, com nada sendo alcançado. Enquanto ele? Enquanto ele tem o contrário, enquanto ele canta uma vitória que não lhe pertence sequer um centímetro. Perdedor, ladrão e mentiroso, assim seria sua eterna definição para aquela mente já apodrecida.

Off with his head!